Mix Lendas

Caribay e as cinco águias
Essa história faz parte da mitologia dos Mirripuyes (antiga tribo da região dos Andes venezuelanos). Integra uma coletânea de contos de tradição oral de vários povos, fruto de uma pesquisa temática que estou realizando e que aborda o tema 'paixão'. Tradução e adaptação de Sandra Baldessin.


Esta é a história de Caribay, a primeira mulher criada. Ela era filha do ardente Zuhé (o Sol) e da pálida Chía (a lua). Caribay era formosa, manifestava-se como um gênio das florestas aromáticas. Podia imitar perfeitamente o canto dos pássaros e suas companheiras eram as flores e as árvores, com as quais passava os dias em alegres brincadeiras.Certo dia, Caribay olhava o céu quando viu cinco esplêndidas águias brancas. A beleza de suas plumas despertou a paixão na linda jovem que começou a seguir as águias por todos os lugares, atravessando vales e montanhas, seguindo, incansável, as sombras das aves que se desenhavam no solo. Afinal, chegou a um lugar muito alto, e desse local pode ver que as águias desapareciam nas alturas azuladas do firmamento. A tristeza tomou conta do coração de Caribay, pois ela desejava ardentemente adornar-se com as plumas das águias. Então, Caribay ergueu a sua voz e clamou por Chía, sua mãe. Não demorou muito e as águias surgiram novamente diante de seus olhos úmidos de lágrimas. Enquanto as imponentes aves voavam harmoniosamente, Caribay cantava com toda doçura, para atraí-las. As águias, então, encantadas pelo som adorável do canto de Caribay, se quedaram, imóveis no ar. Carybay aproveitou essa imobilidade e correu até elas, para arrancar-lhes as penas, que sua paixão exigia que possuísse. Porém, um frio glacial petrificou suas mãos antes que ela pudesse alcançar as águias. Percebeu, então, que as aves, enfeitiçadas por sua voz, ao deixarem de voar ficaram enregeladas e converteram-se em cinco enormes massas de gelo. Caribay gritou, aterrorizada. Pouco depois, Chía se obscureceu e as cinco águias despertaram. Furiosas, sacudiram as suas penas imaculadas e, assim, toda a extensão da montanha se engalanou com a belíssima plumagem branca.Os blocos de gelo do qual se libertaram as águias originaram as incomparáveis serras nevadas da Mérida. As águias simbolizam os cinco picos eternamente cobertos de neve, que são as plumas congeladas das aves. As grandes e tempestuosas nevadas que ocorrem no local são um cerimonial da natureza, que relembra o furioso despertar das águias. O sibilar do vento que acompanha a fúria das nevadas representa a doçura e a tristeza do canto de Caribay.







A Camisa do Homem Feliz

Essa é uma lenda européia, que circulou na Escandinávia desde o século VII. Traduzida do espanhol e adaptada por Sandra Baldessin.







Era uma vez um rei, cujos domínios se estendiam por terras tão longínquas que se costumava dizer que em seu reino o sol jamais se punha. Este rei tinha riquezas imensuráveis: os mais belos diamantes que já saíram das minas; os mais produtivos pomares, cujos frutos possuíam a doçura do mel; o gado que vivia em seus pastos era viçoso e se reproduzia extraordinariamente.
Tudo que o rei desejasse, imediatamente um súdito aparecia para satisfazê-lo, pois para coroar sua boa fortuna, ele ainda contava com o amor de seu povo, que ele governava com mansidão, coisa rara naqueles tempos.
Tudo estaria perfeito, não fosse o fato de o rei ter um filho, um jovem forte e bonito, criado com as mais finas iguarias que as terras reais produziam, sempre trajado com as mais ricas sedas e tafetás e ornado de jóias especialmente desenhadas para ele. Apesar de todo este garbo, o filho do rei era um jovem triste, de uma tristeza que tira o brilho dos olhos, faz a pele amarelar e os cantos dos lábios ficarem caídos.
Todos os médicos afamados que viviam no extenso domínio do reino foram chamados. E nada da tristeza do jovem príncipe ser curada. Tentaram de tudo: poções feitas com ervas quase desconhecidas, invenções de alquimistas, benzimentos e tudo o mais que o engenho humano pudesse conceber. O rei percebeu que se aquela tristeza não fosse debelada o seu filho morreria.
Certo dia, quando todos no palácio já desesperavam, uma mulher de idade muito avançada apareceu nos portões, pedindo, por favor, um caldo quente que ajudasse a aquecer o seu velho corpo. Ela ouviu falar da doença do príncipe. Segredou à cozinheira que só uma coisa poderia curar o jovem: deveriam vesti-lo com a camisa de um homem feliz, cuja felicidade viesse do âmago e pudesse ser comprovada.
Então, o rei decidiu dar uma enorme festa, que duraria o prazo de seis meses, para que todos os nobres e o povo, todos os seus súditos viessem ter ao palácio e, assim, o rei descobriria um ser verdadeiramente feliz, compraria sua camisa e a vestiria no filho que morria lentamente, salvando-o.
A empreitada animou a todos, criou-se uma estratégia de investigação. Desse modo, a cada pessoa que chegava à festa o rei ou um seu encarregado perguntava: "E então, senhor duque, está feliz com seu ducado, com seus pastos e negócios?" Um a um, todos respondiam que sim, estavam felizes. Então, se propunha a estas pessoas: "E não quer vir morar no palácio, desfrutar de todos os tesouros do rei?" E a resposta gelava o coração do rei: "Claro que sim, então eu seria verdadeiramente feliz".
Os meses se passaram e ninguém conseguiu satisfazer a condição de felicidade proposta pela velha mulher. O rei, angustiado com a perda iminente do filho, que já estava só pele e osso, saiu a passear no campo, nos arredores do palácio. Repentinamente, ouviu um homem cantando a plenos pulmões, uma melodia tão alegre que até o sol brilhava mais intensamente. Um frêmito de esperança encheu o coração do rei e ele seguiu na direção daquela voz.
Viu um homem que cuidava do rebanho, sorridente, vestido de um casaco grosseiro que o ajudava a se proteger do frio rigoroso. O Rei se aproximou e, apresentando-se, fez logo a pergunta: "E então, meu jovem, quer vir morar no meu palácio, desfrutar os meus tesouros?" Qual não foi sua surpresa quando o jovem respondeu: "Qual nada, Majestade, que tesouros o senhor poderia me oferecer que eu já não tenha?"
Imediatamente o rei puxou-lhe o casacão e já ofereceu: vou lhe dar um baú de moedas de ouro em troca de sua camisa. Nesse momento, o jovem gargalhou mais fortemente, ao mesmo tempo em que o rei constatava que o homem mais perfeitamente feliz sequer tinha uma camisa!

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